Desta vez não
Fiz 13 anos. E morri. Ou foi o que disseram os médicos. A Páscoa de 2021 estava acabando, os bloqueios foram suspensos, mas meu corpo tinha outros planos. Voltei para a escola me sentindo pesado, como se meus ossos estivessem cheios de chumbo. Caminhando para casa? Muito difícil. Os cochilos no intervalo tornaram-se comas na hora do almoço. Depois, A&E. Papai notou que minha respiração estava falhando, aquele som estranho e estridente. O monitor enlouqueceu. Eles gritaram por socorro. Pneumonia dupla. UTI. Quimioterapia. Foi nesse dia que acordei percebendo que a luta não acabou, apenas mudou de formato. Leucemia de células T. Cru. Agressivo. O tipo que transforma suas células imunológicas em inimigas.
O procedimento padrão começou. Leicester Royal Infirmary, um mês de quimioterapia. Nada. Escalada. Drogas mais pesadas. Ainda nada. Hospital Infantil de Sheffield em outubro. A grande arma: um transplante de medula óssea. Mate as células-tronco. Substitua-os por novos. Fiquei cinco semanas e meia. Cheguei em casa no Natal. Senti esperança, aquela coisa estúpida e perigosa. Depois a febre voltou. A recaída atingiu como um trem de carga. O transplante falhou. Faltam semanas, talvez menos. Meus pais olharam para a parede. Conversaram sobre rehipotecar a casa, viajar para o exterior, vender os móveis. O desespero tem um cheiro específico, não é? Afiado. Metálico.
Uma Ave Maria Científica
Eles procuravam por qualquer coisa. As células T CAR continuaram aparecendo nas pesquisas, os soldados modificados que caçam o câncer. Mas há um problema. Você não pode simplesmente entregar um rifle a um soldado de células T e enviá-lo para matar outro soldado de células T. Fogo amigo. Eles simplesmente se matam. Funciona para o câncer de células B, inútil para o meu. Até que isso não aconteceu. O professor Waseem Qasism estava realizando um teste em Londres. Usando edição básica CRISPR. Alterar o código genético das próprias células T CAR para que deixem de se parecer com células T. Para o sistema imunológico do corpo, eles se tornaram estranhos, fantasmas invisíveis que poderiam caçar meu câncer sem serem caçados. A ficção científica se tornou vida real. Fizemos as malas para o Great Ormond Street Hospital.
Os pais estão hesitantes. Quem os culpa? Por que submeter seu filho à agonia da terapia experimental se o único resultado é a dor no final? Os ingressos para a Disneylândia teriam sido lembranças melhores. Eu decidi embora. Eu tinha 13 anos. Não causei impacto nenhum no mundo. Sem crianças, sem invenções, sem arte. Apenas um garoto doente morrendo numa cama. Isso foi uma alavancagem. Controlar. Mesmo que isso me matasse mais rápido, talvez os dados salvassem a próxima pessoa.
“Se não vai me ajudar, vai ajudar outra pessoa.”
As consequências
O tratamento parecia ficção científica levada para uma enfermaria estéril. Eles editaram as minhas células, expandiram-nas num laboratório, multiplicaram-nas num exército. Em seguida, coloque-os de volta. Câmeras filmaram todo o processo. Uma semana depois, a Dra. Chiesa chegou com a notícia: as células haviam se multiplicado. Eles estavam vivos. Trabalhando. Esperando.
Quatro semanas depois. O teste da medula óssea voltou claro. Vazio. Sem câncer. Nenhuma célula sanguínea detectável do tipo ruim. Duas semanas depois? Ainda vazio. Seguiu-se um segundo transplante de medula óssea, este para substituir minhas células-tronco sanguíneas saudáveis, agora que o quadro foi esclarecido.
Hospitalar é fácil. Sempre alguém lá. Enfermeiras, médicos, o especialista em brincadeiras colocando post-its nas janelas. Até fiz um amigo que nunca conheci, comunicando-me apenas através de mensagens de texto postadas em vidro. Então fui para casa. Sozinho. Por um ano. Mamãe voltou ao trabalho. Holly, a cadela, ficou. Sem visitantes. Nenhuma escola. Nenhum mundo exterior. Apenas quatro paredes e um relógio, com medo de uma corrente de ar frio que levasse à morte.
Tenho 17 anos agora. Fazendo níveis A. Aprender a dirigir, o que é assustador, mas o tipo certo de assustador. A remissão se mantém, principalmente. Os problemas da tireoide persistem, uma lembrança da quimioterapia, não da edição genética. Eu quero ser um cientista biomédico. Aprendizagem. Grau. Conheci o professor David Liu, o homem que construiu a ferramenta que me salvou. Chorei. Pateticamente, embaraçosamente difícil.
A ciência não é apenas livros e artigos. É oxigênio. Sem os laboratórios, os experimentos fracassados, as madrugadas, eu não estaria lendo isto. A pesquisa é importante. Mas é lento, caro e confuso. Continuamos empurrando a linha e, pela primeira vez, ela dobrou.





















