A Miragem BECCS: Por que a solução climática “milagrosa” está falhando

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Durante anos, os modelos climáticos confiaram num “milagre” matemático para mostrar um caminho para o arrefecimento do planeta. Estes modelos sugerem que, mesmo que ultrapassemos o limite de aquecimento de 1,5°C, podemos reverter os danos colhendo plantas, queimando-as para obter energia e capturando as emissões resultantes através da Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono (BECCS).

No entanto, a realidade desta tecnologia está a revelar-se muito diferente dos gráficos optimistas. Em vez de um salvador climático, o BECCS está a emergir como um empreendimento caro, ineficiente e potencialmente contraproducente.

Da teoria à solução “oficial”

A ascensão do BECCS é um estudo sobre como os conceitos teóricos podem tornar-se perigosamente enraizados na política. A ideia foi proposta pela primeira vez em 2001 por investigadores suecos como uma forma de nicho para as fábricas de papel ganharem créditos de carbono. Em 2005, os modeladores climáticos começaram a utilizá-lo como uma ferramenta teórica para justificar cenários em que as temperaturas globais descem após um pico inicial.

Em 2014, este conceito teórico foi integrado nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O que começou como um espaço reservado matemático tornou-se efetivamente a solução global “oficial” para alcançar emissões negativas.

O colapso dos projetos emblemáticos

A lacuna entre teoria e prática é mais evidente nas tentativas da indústria de dimensionar a tecnologia. O exemplo mais proeminente foi a usina de energia Drax do Reino Unido. Em 2015, a Drax anunciou planos para converter a sua enorme central a carvão para funcionar com pellets de madeira enquanto captura e armazena CO2.

Uma década depois, o projeto está em crise:
– A planta está queimando pellets de madeira, mas não está capturando carbono.
– Os planos para implementar a captura de carbono foram arquivados indefinidamente.
– O projecto, outrora visto como referência global para BECCS, está agora efectivamente “em cuidados intensivos”.

Embora existam projetos mais pequenos em todo o mundo, a falta de impulso deve-se em grande parte aos custos astronómicos. Os governos estão cada vez mais hesitantes em fornecer os subsídios maciços necessários para tornar viável um processo tão caro.

Por que o BECCS pode realmente aumentar as emissões

A revelação mais alarmante de pesquisas recentes é que o BECCS pode, na verdade, ser pior para o clima do que os combustíveis fósseis tradicionais no curto prazo. De acordo com Tim Searchinger, da Universidade de Princeton, um novo modelo computacional sugere que pode levar 150 anos para que o BECCS realmente remova o CO2 da atmosfera.

Várias ineficiências sistêmicas impedem que a tecnologia funcione conforme planejado:

  1. Vazamento de carbono durante a colheita: Nem todo o carbono de uma floresta chega à usina. Quando as árvores são colhidas, grande parte do carbono armazenado nas raízes e nos detritos orgânicos apodrece, libertando CO2 diretamente na atmosfera.
  2. Conversão de energia ineficiente: A queima de madeira produz duas vezes mais carbono por unidade de energia do que o gás natural. Além disso, a madeira queima a temperaturas mais baixas, o que significa que menos energia é convertida em eletricidade.
  3. A penalidade energética: O processo de captura de carbono consome muita energia. As centrais eléctricas precisariam de queimar significativamente mais madeira apenas para alimentar a maquinaria de captura, que normalmente capta apenas cerca de 85% das emissões.
  4. Destruição de sumidouros naturais: Os modelos climáticos assumem que as florestas funcionarão como “sumidouros de carbono”, absorvendo CO2 extra através de um processo denominado fertilização com CO2. Ao explorar estas florestas para o BECCS, podemos estar a destruir os próprios sistemas naturais que actualmente trabalham para estabilizar o clima.

O compromisso entre biodiversidade e segurança alimentar

Mesmo que a tecnologia funcionasse perfeitamente, a escala necessária seria ecologicamente devastadora. Para reduzir os níveis globais de CO2, seriam necessárias grandes quantidades de terra para cultivar culturas energéticas.

Isto cria um conflito direto com duas outras prioridades globais:
Biodiversidade: Converter paisagens naturais em plantações de monoculturas energéticas seria catastrófico para a vida selvagem.
Segurança Alimentar: À medida que continuamos a desmatar florestas tropicais para a agricultura, dedicar ainda mais terras às “culturas energéticas” ameaça o abastecimento global de alimentos.

“Deveríamos acelerar o nosso movimento em direção à energia eólica e solar tanto quanto possível”, diz Searchinger, sugerindo que o nosso foco deveria permanecer na prevenção e não numa tentativa falha de reversão.

Conclusão

O fracasso da BECCS na materialização serve como uma lição crítica: não podemos confiar em tecnologias dispendiosas e não comprovadas para “limpar” as nossas emissões após o facto. A forma mais eficaz de gerir os níveis de carbono continua a ser a rápida transição para as energias renováveis ​​e a proteção dos ecossistemas naturais existentes.

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